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5 coisas que não entendemos: 5.ª Temporada de Game of Thornes

Nós realmente amamos a série da HBO. Somos fãs dos livros e assistimos as cinco temporadas pelo menos umas três vezes. Mas essa quinta foi triste de assistir. Eis cinco coisas que não entedemos na quinta de GoT:

A Estrada para o Oscar 2013: Argo

 A Estrada para o Oscar 2013: Argo

9,5



Ben Affleck é um daqueles casos que durante anos permaneceu no lado errado das câmeras em Hollywood. Apesar de angariar boas críticas no filme que ajudou a escreve, em Gênio Indomável, e ser um dos atores fetiche do cult Kevin Smith, não teve a pretensão de escolher bons papéis em sua carreira como galã jovem. Sua parceria com o diretor Michael Bay e o fiasco de Demolidor - O Homem Sem Medo quase acabaram com sua credibilidade. Mas, em 2011, ele se redimiu com seu segundo filme, Atração Perigosa. Um thriller intenso que quase entrou na briga pelo Oscar e atraiu a atenção da indústria do cinema de volta ao ator, agora, um diretor promissor. Argo é a confirmação desse talento por anos reprimido e que entra como favorito nessa fase final da corrida pelo ouro.

No final dos anos 70, uma revolução no Irã faz com que a CIA tenha que criar uma missão de resgaste, disfarçada de produção de cinema, para resgatar seis diplomatas.

Seja na fidelidade aos detalhes, seja na metáfora do cinema como salvador do mundo, ou na profundidade dos personagens, o diretor caminha transita seguro por cada elemento e passa esse sentimento ao espectador. Affleck consegue arrancar atuações apavorantes, tanto da multidão enraivecida, quanto dos diplomatas amedontrados. O suspense que se instala nos primeiros minutos do filme e só acaba nos minutos finais é angustiante e estarrecedor, mas não opressivo, e isso se deve também às ótimas atuações do indicado ao Oscar Alan Arkin e John Goodman, como produtores de renome em Hollywood.

Parece que como diretor, Affleck também descobriu que é seu melhor diretor. Sua atuação não é caricata, é honesta. É como se durante todos esses últimos anos, outras pessoas restringissem sua capacidade que agora não depende mais de um terceiro.

Ben Affleck, no comando completo de seus projetos, é um proeminente nome a ser lembrado pelas futuras gerações do cinema.

Django Livre - O bom, o mal e Django


Nota: 9 / 10


Pilar de seu cinema desde Cães de Aluguel, o western spaghetti sempre completou a trinca de influências da colcha de retalhos que é a filmografia de Quentin Tarantino. Juntamente com os filmes de kung fu e o trash dos anos 70, suas referências podem ser encontradas com maior peso em Kill Bill e, naquele que veio a ser considerado sua obra-prima, Bastardos Inglórios. Se as maiores referências para a história de Django Livre são os filmes de Sergio Leone (Era Uma Vez no Oeste e Três Homens em Conflito), a estética e a forma de contá-la são 100% tarantinescas. Estão presentes a verborragia hipnotizante, a violência atordoante e a edição rápida, já conhecidas de seus filmes e que vão totalmente contra o ambiente imersivo e lento de, por exemplo, a cena de abertura de Era Uma Vez, que por quase 10 minutos encara os capangas em uma estação de trem, ou o desfecho de Três Homens, que parece durar uma eternidade no famoso mexican stand-off. Django é portanto, a visão do velho oeste pelos olhos da geração multimídia, que não tem paciência para a letargia do faroeste, mas procura nos filmes o frenetismo do dia-a-dia. Talvez por isso, o filme seja tão prazeroso.

Django Livre conta a história de um escravo (Jamie Foxx) que se associa ao caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz (Cristoph Waltz), para tentar encontrar sua esposa, comprada por um perigoso fazendeiro conhecido como Candie (Leonardo DiCaprio). Como pano de fundo, a iminência de uma revolução abolicionista. E Tarantino não tenta oferecer um lado digno para os escravocratas: ele os trata como ignorantes e burros preconceituosos. Ninguém que pactua com a atividade é poupado. É a revanche do mais fraco, já abordada em Bastardos Inglórios, que não deu chances à figura histórica de Hitler.
Por mais que Cristoph Waltz pareça repetir o papel de Hans Landa na encarnação do anti-herói Dr. Schulz, sua atuação novamente impressiona pela profundidade que o ator aplica constrói seu personagem. Os trejeitos físicos e a presença psicológica de Schulz quase apagam o protagonista Jamie Foxx, mas o diretor soube elevar Django na hora certa, e no terceiro ato, ele rouba a cena de forma a chumbo e sangue. DiCaprio é um destaque a parte, digno do hall de vilões de Tarantino.
Se Tarantino peca em Django, peca pelo excesso. Excesso de referências, de citações (que incluem o conto de Siegfried e Brunhilda, e as origens da Ku Klux Klan). Excesso de exageros. É como se o diretor estivesse ciente disso e se desculpasse com o público na última frase do Dr. Schulz, ao condenar todos os personagens no ápice do filme: “Eu não pude resistir”.

Especial Oscar 2013 - Cinema de Animação

Foi um ano de decepções e filmes que simplesmente se acomodaram no desenvolvimento de uma história diferenciada, com atrativos que passassem da questão técnica. A DreamWorks, que vinha acertando desde Como Treinar o Seu Dragão, teve em seus dois maiores lançamentos, Madagascar 3 e A Origem dos Guardiões, uma estagnada prejudicial não só para as finanças como para a imagem frente ao público. Ignorada no Oscar, a empresa vai tentar se redimir em 2013 com Os Croods e Como Treinar o Seu Dragão 2.

Pior foi a Disney/Pixar, que lançou as duas animações mais esperadas do ano e decepcionou até o mais fervoroso dos fãs. Valente, com a primeira protagonista feminina da Pixar, não só recauchutou o plot fraco de Irmão Urso, como preferiu se ater a clichês e reviravoltas previsíveis, canções melosas e o desfecho da lágrima-curadora-de-todos-os-males, ao invés de explorar o universo feminista com mais afinco. Pior, a Pixar demitiu a diretora original do filme, insatisfeita com o resultado final. A tal "liberdade criativa" e "controle total" da obra, parecem ter desaparecido da lista de pontos positivos da empresa, que desde Toy Story 3, não consegue emplacar uma produção de qualidade.

Já a Disney vendeu Detona Ralph! muito bem, só para depois, desconsiderar o público do videogame e cativar as criancinhas. Uma pena. Outro potencial desperdiçado, na tentativa de criar personagens fofos para capitalizar em produtos licenciados. Mas de Detona Ralph!, você pode ler no post abaixo. Agora, é hora de falar das surpresas do ano.

Piratas Pirados! foi uma das mais agradáveis. Humor rápido, animação competente e que volta a fazer o assunto "piratas" soar interessante. Com a produção britânica dos estúdios Aardman, que levaram o Oscar por Wallace e Gromit: A batalha dos vegetais, o diretor Peter Lord (Fuga das Galinhas), fez um filme atemporal, com personagens marcantes, uma história que tira sarro de tudo e provoca o espectador, por sair da sua zona de conforto.

Depois, Frankenweenie, de Tim Burton. Pode ser dito que é o melhor Tim Burton desde Batman - O Retorno. Tem todos os elementos que já conhecemos: fotografia expressionista, personagens bizarros, trilha de Danny Elfman e a trama do garoto estranho que ninguém entende. Felizmente tem muito bom humor e ótimas referências aos filmes de terror da Universal que deliciam e enchem os olhos. A ótima animação em stop-motion também engrandece o filme.


Mas nenhuma animação surpreendeu tanto quanto Paranorman. O que parecia uma aventura bobinha, escorada na moda zumbi. Qual não foi a felicidade descobrir que o último filme que assisti em 2012 seria a melhor animação? Inteligente, com reviravoltas que surpreendem, não usa clichês sobre bullying, pelo contrário, faz piada com a moda de criticar os valentões, tem uma técnica tão aprimorada que confunde com computação gráfica, ótima dublagem e diversão para não botar defeito.

E sabe o que mais? Das 5 animações no Oscar, 3 são em stop-motion, e são as melhores. Parece que está na hora dos grandes estúdios voltarem a refletir de qual deve ser a prioridade: o perfeccionismo técnico, ou a harmonia de elementos.

O Oscar não é uma premiação justa, mas acredito que Valente não terá a mesma sorte que teve no Globo de Ouro. Em todo o caso, Frankenweenie é meu favorito à estatueta. Mas, quem sabe as musas olhem com favor para Paranorman ou Piratas Pirados.

Detona Ralph! - Universo gamer é homenageado em animação voltada para as crianças

Nota: 7,5


As adaptações da cultura gamer para o cinema sempre esbarram na mediocridade. Na indecisão de favorecer o público fã ou adaptar para uma realidade cinematográfica, o desastre torna-se inevitável. Dos exemplos de sucesso, mal pode-se citar Mortal Kombat e alguns filmes da série Resident Evil. Em compensação na sessão vergonha alheia, basta lembrarmos daquela versão patética de Street Fighter, com Jean-Claude Van Damme, Super Mario Bros. e Double Dragon, na década de 90. Nos anos 2000, um diretor alemão chamado Uwe Boll conseguiu transformar clássicos dos games em montes de esterco, chegando a levar o prêmio Ed Wood de Pior diretor da década. São dele os trashes como Alone in the Dark, BloodRayne, Far Cry e o já clássico da tosqueira, House of the Dead.
Detona Ralph tenta dar um pouco de dignidade a esse universo que não consegue ter um bom reflexo no cinema. Homenageando desde os arcades até os primeiros consoles, o filme está bem localizado na cultura gamer. Infelizmente, a fachada de gamemaníaco falha quando a história tenta se voltar para as resoluções de fácil assimilação do público infantil.

A história acompanha Detona Ralph, um vilão de fliperama, que tem como missão há 30 anos, destruir o prédio onde vive o protagonista de seu jogo, Fix It Felix. Chega o momento em que Detona desiste de ser um vilão e parte em uma missão para ser o novo herói dos videogames.

Diretor egresso da televisão, de programas como Futurama e Os Simpsons, Rich Moore estreia em longa-metragens também como roteirista. Utiliza de maneira inteligente os detalhes da estética pixelizada dos jogos de 8-bits, cria momentos de ação que emulam os games dos mais diversos gêneros. É na hora da construção dos personagens, como em A Origem dos Guardiões, que o filme acaba perdendo seu impacto. De um começo interessante, a um relacionamento estilo Monstros S.A., Detona Ralph! parece querer forçar o espectador a simpatizar com a menininha levada que é um bug do jogo Sugar Rush, um daquele jogos de corrida com cenários rosas e repletos de product placement. Não apenas os personagens não convencem com sua amizade-óbvia-mas-improvável, como as referências com a cultura gamer desaparecem e a animação passa a ser apenas mais um filme infantil.

O roteiro tenta deixar claro desde os primeiros minutos de projeção que o filme utilizará elementos pops dos games, como é o caso dos personagens de Street Fighter, Super Mario Bros., Sonic e Pac Man em sua narrativa, mas, após uma breve participação especial, eles desaparecem. Sobram apenas os personagens criados para o filme, que não compensam a expectativa criada pelos trailers. Além disso, o mundo do fliperama, com dezenas de jogos participantes, dá lugar ao mundo de Sugar Rush, onde o filme se passa quase que inteiramente.

O que falta a Detona Ralph! é o que sempre falta aos filmes de videogame: a adaptação da linguagem como solução visual para uma história. Até hoje, Scott Pilgrim Contra o Mundo é a melhor interação entre gamers e cinema, mas baseado em uma HQ. Detona Ralph! só deveria ter entendido que utilizar personagens conhecidos não é o suficiente para satisfazer os fãs do gênero.

Origem dos Guardiões - Equipe de super fábulas tem boa premissa, mas não cumpre o que promete

Nota: 6/10



O Papai Noel com os dois braços tatuados (Nice e Naughty), um Coelho da Páscoa australiano (quase um canguru), Jack Frost (praticamente desconhecido no Brasil, onde ele aparentemente não aparece há uns bons anos), a Fada do Dente e o Sandman (João Pestana no Brasil), uma equipe de super-heróis que protegem as crenças infantis do Bicho Papão. Essa premissa empolga. As artes da animação mexem com o espectador. Tudo se encaminha para uma sessão de muita ação e entretenimento. Até começarem os primeiros bocejos.

Dirigido por Peter Ramsey, já conhecido por aquela outra bomba, Monstros Vs. Alienígenas, A Origem dos Guardiões peca pela conversa fiada. As cenas de ação não empolgam pois o inimigo (uma espécie de Loki infantil) não consegue intimidar. É a clássica questão do muito papo para nada. Se ele fosse realmente mau, simplesmente acabava com os guardiões e terminava o filme como senhor do universo. Mas esse não é o problema da direção. A responsabilidade de Ramsey é aproveitar a duração do filme para fazer o público se importa com seus personagens. Mas na tentativa de mostrar todos os detalhes de cada um dos guardiões, o diretor esquece de criar essa profundidade e aligação com o público. As histórias são as mesmas que já foram usadas por tantos filmes: o herói que não aceita seu fardo e precisa descubrir seu valor. Frost não é um personagem tão carismático a ponto de ser um protagonista em um filme que precisa de aceitação mundial.

Soma-se a isso o ritmo lento, intercalado por muitos diálogos vazios e cenas melodramáticas, tornando o vilão um inimigo repetitivo e sem a capacidade de manipulação verdadeira ou perigo de um Loki. Mesmo o visual do filme não explora a capacidade de escala que se tornou marca dos filmes da DreamWorks e, apesar de algumas soluções estéticas interessantes, cai no limbo dos filmes empacotados para uma Sessão da Tarde.

O Hobbit - A versão 2.0 do cinema

O Hobbit - A versão 2.0 do cinema
Nota: 10




Eu lembro que assisti Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, em duas fitas vhs locadas na minha cidade. Não esperava muito. Me surpreendi. Fiquei hipnotizado. Fui absorvido. Era uma visão do fantástico catártica, elevava os filmes do gênero a outro nível. Nunca mais um filme épico seria igual, Peter Jackson garantiu isso. Foi uma trilogia perfeita, provavelmente, o que Star Wars simbolizou em uma outra época, O Anel marcou a geração dos anos 2000. E quase como Star Wars, a trilogia tornou-se um projeto de hexologia. Mas O Hobbit não tem nada da decepção que foi a Ameaça Fantasma. Pelo contrário, é provavelmente um novo patamar no cinema épico. Provavelmente o melhor filme de fantasia já feito.

Antes de Frodo, Bilbo Bolseiro participou de uma aventura quase tão épica quanto a da Sociedade do Anel. Junto com um grupo de anões, o relutante hobbit, parte em direção a Montanha Solitária, na tentativa de reaver o tesouro e o lar de toda uma civilização. Mas, antes, um dragão terá que ser derrotado.

Diferente do que costumo relatar em minhas críticas, vou enfatizar os pontos fracos do filme antes de me aprofundar nos pontos positivos. Em relação ao excelente livro de J. R. R. Tolkien, O Hobbit difere em alguns pontos que compõe a personalidade do Bolseiro e que considero fundamentais para a narrativa. Existe uma dualidade poderosa em Bilbo, uma guerra entre o lado Tûk  e o lado Bolseiro, que senti falta nessa primeira parte. O protagonista ficou meio esquecido entre a grandiosa história de Torin, as proezas de Gandalf e até quando ganha espaço maior, no duelo de adivinhas, Gollum e sua atuação soberba digital se sobressai. Uma pena. Martin Freeman é um grande ator que poderia levar o filme nas costas se necessário.

O filme também simplifica as lições disseminadas pelo livro para tornar cada parte independente. Heroísmo piegas, resoluções simplistas quase são um problema ao longo das quase três horas de projeção e poderiam diminuir a qualidade de O Hobbit, não fosse suas curtas durações.

Acho que é isso.

Peter Jackson conseguiu novamente. Melhor, ele criou um novo limite no que se refere a adaptações, efeitos especiais e cinema blockbuster. Na adaptação, o filme reúne não apenas a linha principal do livro, mas se dá ao luxo de utilizar seu tempo para investigar inclusive os subtextos e histórias secundárias que despertam completamente o interesse do leitor, e, nesse caso, espectador. Radagast, o mago marrom, tem espaço de sobra na tela para mostrar seu bom humor e sua própria mitologia. Gandalf, o cinzento, mostra porque era tão temido e amado, e muito mais interessante do que sua versão como Gandalf, o branco, que sempre considerei bem insossa. Mais do que isso, o tom do filme é divertido como o livro, as canções são emocionantes e tudo isso levando adaptação a um nível de fã doentio.

Os efeitos especiais, desde a abertura arrebatadora nas cavernas dos anões, aos flashbacks (que você anseia recorrentemente durante a projeção), superam as cenas de batalha de O Retorno do Rei inclusive. A fuga pela caverna de orcs é outro momento que mistura a aventura de Goonies, com a linguagem videogame de tantos jogos de aventura e a emoção de uma montanha russa. O que nos leva às criaturas digitais. O Rei Orc da caverna e o Rei Orc de Moria seriam o suficiente para apavorar o Peter Jackson de 2001 com a perfeição sutil de suas interpretações. Mas ele vai além. A briga dos trolls é crível. Dá nojo e até pena. O Gollum está fenomenal. Andy Serkis faz por merecer uma indicação ao prêmio de melhor coadjuvante. É crível, conquista nos detalhes, nas expressões.

Por fim, tornar a história divertida e agradável ao público comum é a cereja do bolo de Peter Jackson. Quem é fã, vai amar. Quem só assistiu os filmes, vai delirar. Quem se apaixonou por O Senhor dos Anéis após os 180 minutos de duas fitas VHS, vai entender, que a nova trilogia, pode ser a maior aventura de sua vida.

Hanna - Joe Wright muda, acerta na ação, mas se perde no caminho

NOTA: 6/10



Primeiro, um filme de época. Orgulho e Preconceito, a versão mais recente adaptada aos cinemas, com Keira Knightley, foi um sopro de novidade em um gênero irritantemente parecido. As soluções visuais tornaram a história atraente e contemporânea. Depois, filme de guerra. Desejo e Reparação pode ser considerado um dos filmes mais belos e tristes feitos no cinema nos últimos anos. Novamente, narrado com ritmo, belas imagens, um plano-sequência de dez minutos por uma praia francesa, que intercala o horror da guerra e a esperança de uma vida melhor. Por fim, um filme de auto-ajuda e superação. O Solista interpreta a música de forma visual, verborrágica e como única forma de ordem universal. Hanna é o primeiro filme do diretor voltado para o gênero ação/espionagem, novamente com Saoirse Ronan, que recebeu indicação ao Oscar por Desejo e Reparação. E apesar de lidar bem com as cenas de ação, o diretor parece não se encontrar muito bem onde já teve experiências nas outras produções: o meio do caminho.

Hanna foi criada pelo pai em meio à vastidão isolada da Sibéria. Treinada incessantemente na luta e sobrevivência, ela decide encarar o mundo e enfrentar a força da CIA que começa uma caçada para eliminá-la.

Saoirse começa o filme caçando um cervo e antes dos primeiros cinco minutos, já apontou a arma para o espectador e atirou. Olhando para a câmera sem piedade ou remorso ela simplesmente dispara. Não há diferença na vida ou na morte. Ao menos, ela não reconhece se há. Esse tom do distanciamento da realidade pela protagonista se reflete inclusive na sua presença física, completamente fora da realidade do ambiente em que está inserida. Sobrancelhas loiras, corpo esguio que não soa ou se queima, a dificuldade de se relacionar com outros seres humanos, tudo colabora para o estranhamento da personagem. Já Eric Bana e Cate Blanchet estão como os protótipos hollywoodianos de espiões: infalíveis mas imperfeitos. Fora desse triângulo, só se destaca a gangue de sádicos que protagoniza as melhores cenas do filme, mas ainda assim permanecem mal explorados.

A direção de Wright aposta em um clima rápido, com o volume da trilha sonora eletrônica empurrando o espectador em uma montanha-russa, logo na primeira meia hora do filme. É só quando a tentativa de relacionar a personagem com o mundo real começa que ela falha e derruba o ritmo do filme. O estranhamento e a desnecessária interação com personagens sem carisma estagna o Hanna tempo suficiente para tirar o interesse do espectador. A atenção só volta quando em duas cenas incríveis de luta, Wright ignora completamente a edição picotada e confusa da "era Bourne" e aposta em um plano-sequência rápido e inteligente.

Infelizmente, toda a preparação e calma do início do filme acaba por se desenrolar em um desfecho não só previsível como embolado, tentando amarrar muitas pontas soltas em poucos minutos. A garota que nem sequer sabia o que era uma tv descobrindo respostas sobre genética através do computador soa tão desnecessária quanto a metáfora da Chapeuzinho Vermelho entrando na boca do lobo, poucas cenas mais tarde. E quando enfim ela novamente se depara com seu adversário caído e prestes a morrer, fica óbvio que ela não pretendia errar o coração.

Piratas Pirados - A volta ao stop-motion dos estúdios Aardman

8,5 / 10


Lembro de quando era criança ser um fã das animações em massinha de Wallace e Grommit. Lembro nitidamente do episódio onde ambos viajam para a lua para comer queijo, porque como todos sabem, a lua é feita de queijo. É essa deliciosa lógica nonsense inglesa que tanto me conquistou através dos anos. Talvez  por essa ligação desde cedo com a cultura bretã, nunca entendi como algumas pessoas simplesmente não acham graça em Monty Python ou outros programas ingleses. Piratas Pirados e um desses filmes que ousam sair da zona de conforto infantil e apostar, mesmo que levemente, no politicamente incorreto, mesmo que isso signifique lidar com o desgosto de alguns pais que esperam um filme mais infantil e inocente para seus filhos.

O filme é baseado no livro The Pirates! Band of Misfits e mostra a história do Capitão Pirata, um atrapalhado capitão pirata que quer de uma vez por todas levar o prêmio de Pirata do Ano, concedido pelo Rei dos Piratas. Para isso, ele precisa fazer a maior pilhagem de tesouros dos sete mares, mas, com a sua tripulação de perdedores, essa não é uma tarefa muito fácil. Até que ele cruza o caminho de uma figura histórica que vai lhe ajudar a conquistar esse prêmio.

Com os mesmos diretores de Fuga das Galinhas, Peter Lord e Jeff Newitt e produzido pelo estúdio ganhador do Oscar Aardman (por Walace e Grommit - A batalha dos vegetais), Piratas Pirados é de uma beleza que só a animação em Stop Motion consegue trazer. As suaves paradas do processo de animação não impedem a fluidez ou a qualidade do filme, pelo contrário, trazem um certo charme. O roteiro de piadas rápidas, boas referências e leve humor negro carregam a história debochada, conseguindo um tipo de entretenimento e ponto de vista sobre piratas, diferente da sobriedade (pois é) de filmes como Piratas do Caribe, que depois de um ótimo começo, acabou por se transformar em uma franquia dispensável e desinteressante.

O universo criado em Piratas Pirados mostra um bando que valoriza a amizade mas não perde por pilhar saquear e matar se for preciso, mesmo que normalmente quem está em perigo sejam os próprios piratas. A presença de figuras históricas como a Rainha Vitória e Charles Darwin servem de elemento anárquico para criticar a sempre toda poderosa rainha e mesmo os escrúpulos de um dos maiores cientistas, que no fundo no fundo, era só um romântico inveterado. As dublagens inspiradas que contam com Hugh Grant, Martin Freeman (o novo Bilbo Bolseiro) e David Tennant (Dr. Who) colaboram pra transformar o filme em uma grande diversão que dá vontade de voltar a esse universo em busca de mais aventuras.

Valente - Nova animação da Pixar de novo deixa a desejar

Valente
7/10


Em 1995, a Pixar, um estúdio que começava seus trabalhos em parceria com a Disney, lançou o primeiro filme em computação gráfica da história do cinema, Toy Story. Muitos anos e seis Oscar de melhor animação depois, a situação é completamente inesperada. A empresa se fundiu com a Disney, dominou o mercado de filmes animados e seus criadores já migraram inclusive para produções live action, tamanho o respeito que a empresa conquistou com uma base de fãs aficcionados e produções que inclusive disputaram palmo a palmo premiações com filmes do cinema tradicional. Toy Story 3 foi o ápice. A primeira animação a quebrar a barreira do bilhão de dólares, uniformidade da crítica mundial, um filme de qualidade indiscutível e que traçou um padrão problemático para a empresa: como superar? Carros 2 foi um baque forte para a Pixar. O completo oposto de Toy Story 3. Valente, desde o primeiro trailer, prometeu resgatar o "elemento Pixar" que surpreendeu o mundo desde sua criação. Começando pela primeira protagonista feminina da empresa, passando por um tema difícil de não atrair a atenção (cenário medieval, magia e mitologia céltica).

Merida é uma princesa cansada de ser tratada como tal. Ela quer mais do que aquilo que sua mãe planejou para ela. E para isso, pede para uma bruxa mudar seu destino. O problema é que, pra variar, o feitiço sai errado.

A direção é de Mark Andrews, Brenda Chapman e, ainda, Steve Purcell. A divisão entre diretores é algo comum nas produções da Pixar e já alcançou ótimos resultados. Neste caso, Chapman é a única com experiência em longa-metragens, vinda de O Príncipe do Egito, animação em 2D da rival DreamWorks. O problema começa pelo fato de que Chapman saiu do filme em 2010, devido a divergências criativas. Logo, essa mudança se torna visível na produção.

Valente começa de forma divertida, rápida, irreverente e conseguem capturar a atenção do espectador. Aos poucos, as piadas de humor físico e a predileção por personagens fofinhos e inclusive canções(algo que até então era apenas pano de fundo nos filmes da Pixar) acabam por criar desconfiança no espectador sobre o destino que a história deve tomar. É quando surge a reviravolta que irá determinar o rumo do filme da metade em diante e, quando ela acontece, é decepcionante.

Talvez, o pior defeito de Valente seja o potencial desperdiçado. Os bons personagens, a trama, que apesar de já observada em tantos outros filmes da Disney, tem momentos de tirar o fôlego (o torneio de arco e flecha tem uma cena Robin Hoodiniana de dar inveja) e a sempre esmagadora qualidade visual da Pixar, não seguram o filme quando ele deslancha para o processo de restauração familiar que a mãe a filha precisam passar. Todo o tom de bravura do filme acaba por tornar-se quase uma comédia romântica, com situações engraçadinhas, mas sem peso dramático e muito menos um final climático. Basicamente o mesmo background foi trabalhado em Como Treinar o Seu Dragão, mas ali sim, com um crescimento ritmado até culminar em um final épico que condiz com o resto do filme. Valente tem um ou outro momento de tensão, mas ao final da sessão a impressão que fica é de que tudo foi feito com pressa e sem a escalada adequada. A conclusão do filme, que acaba se rendendo ao piegas também não ajuda e acaba por, novamente, não cumprir as expectativas criadas pela Pixar.

No fim, Valente ainda consegue ser um filme diferenciado, mas longe de se comparar a outras produções da Pixar, que no próximo ano tenta mais uma vez retornar a suas origens com a continuação de Monstros S.A.. Uma pena que as histórias originais andem em falta, mas que ao menos, ela reencontre seu caminho.

O Lorax - Animação baseada em Dr. Seuss aposta com tudo no público infantil

O Lorax
Nota: 7/10

Dr. Seuss é um daqueles autores que faz parte da literatura norte-americana de uma forma tão forte que suas adaptações para o cinema são apenas uma questão de tempo. De tempos em tempos, pipoca mais uma produção baseada em seus livros infantis com tremendo sucesso no Estados Unidos, mas sem a mesma força no resto do mundo. O Lorax não é exceção e consegue manter a linha entre diversão e aprendizado de forma divertida e surpreendentemente bem estruturada. Apesar de insistir no cuidado com meio ambiente e sustentabilidade, dois assuntos interligados que estão mais do que batidos em todas as mídias, o filme consegue boas piadas e números musicais ao melhor estilo Disney, apesar de passar bem longe dos estúdios de Mickey Mouse.

O Lorax mostra a história de Ted, um garoto que decide encontrar a última árvore do planeta para conquistar uma garota. Ele conhece o Once-ler, o homem que em sua ganância acabou com as florestas apesar dos avisos do Lorax, uma criatura que protege as árvores.

A Illumination Entertainment estreou com um sucesso inesperado na animação Meu Malvado Favorito. Longe de procurar os público adolescente e jovem, já disputados acirradamente por Pixar e Dreamworks, a empresa aposta no público infantil sem medo de ser feliz. Tanto o Lorax quanto Meu Malvado tem temáticas primárias, protagonistas caricatos e piadas visuais em abundância. Longe de explorar relacionamentos problemáticos ou lidar com questões problemáticas do crescimento e da vida, seus filmes são de simples linguagem, conflito e finais felizes que, querendo ou não, agradam a criançada e não deixam de encantar o público mais velho.

A fluidez da animação que aposta no cartoon sem medo e as cores vibrantes vindas do universo de Seuss, fazem de Lorax uma aventura original, realçada por uma boa dublagem de um elenco inspirado. Mas o que realmente me conquistou em todo o filme foi a canção "How Bad Can I Be?".



Rápida, com boa levada, a música brilhantemente interpretada por Ed Helms transforma o protagonista de um personagem digno de pena há um completo idiota em pouco mais de dois minutos. No rápido clipe, noções de escala cor e inclusive expressionismo alemão reúnem o que de melhor o filme constrói em linguagem visual.

Apesar de tudo, O Lorax acaba por se apoderar de saídas fáceis e clichês característicos de filmes infantis o que ofusca um pouco de seu brilho único e de suas ousadas tentativas de fugir do lugar comum.

A Hora da Escuridão - Blockbuster russo consegue superar a besteirada dos melhores concorrentes holywoodianos



Russos. Ah, os russos! Bons tempos aqueles em que os únicos filmes produzidos na União Soviética retratavam a força do proletariado, a maravilha do governo totalitarista comunista. Atualmente, graças ao diretor e produtor Timur Bekmambetov, a mãe Rússia descobriu seu potencial para produção de blockbusters comparáveis ao melhor pipocão americano. Depois de ganhar o ocidente com Os Guardiões do Dia e Da Noite, Timur revitalizou o cinema nacional, saindo da morbicidade do cinema artístico europeu e pronto para capitalizar. A Hora da Escuridão está aí pra mostrar os belos pontos turísticos de Moscou e para facilitar a compreensão, no bom e velho inglês, com os melhores americanos que o dinheiro pode pagar.

Se você já viu Independence Day, Fim dos tempos, ou qualquer outro filme do estilo, vai perder tempo assistindo The Darkest Hour. O filme recicla não só a sinopse, o começo, meio e fim, mas todos os clichês que nós já verificamos em produções do gênero. Aliens invadem a terra, massacram as capitais sem qualquer sutileza, vaporizam humanos e dominam a Terra. Resta aos sobreviventes resistirem. Entre eles, Emile Hirsch, em seu pior papel até hoje.

Quando alguém diz que em filme ruim, nem um ator bom consegue salvar, não duvide. Hirsch já mostrou ser um ator acima da média em A Natureza Selvagem. Já em A Hora da Escuridão, vemos ele ser reduzido a meia dúzia de frases feitas, trejeitos de moleque, e sem qualquer profundidade ou originalidade em seu personagem. Irrita a forma como o garoto, programador de software, descobre como derrotar os alienígenas elétricos invisíveis (já comentarei sobre eles), quando ninguém mais no mundo tinha sequer ideia do que fazer. O resto de elenco funciona como corpos para serem mutilados ou escada para que nosso herói prove como ele é incrível. Esta lá a garota que fará par com ele, o amigo que se sacrifica, o covarde e a covarde, o homem simples que é um gênio, a garota corajosa e machona, o exército de revolucionários e os militares com todas as soluções para nossos problemas.


Aliens invisíveis: Cuidado Emile, atrás de você!

Sim, os alienígenas são invisíveis e feitos de eletricidade. Na verdade, nas poucas vezes que eles aparecem, você deseja que eles continuassem sem aparecer. Se essa ideia já pareceu estúpida quando o vento matava as pessoas em Fim dos Tempos, aqui ela é mais sem  vergonha ainda. Ponto para o diretor que economizou bons milhões em efeitos especiais e ainda fez um monte de gente correr para os cinemas.





Sob o domínio do medo - Remake de clássico dos anos 70 carrega a mão no culto ao macho vitimizado


Remakes não são boas coisas. Poucas vezes você assistirá a uma repaginação sem sentir que tem algo errado no que está sendo feito. Mesmo aqueles que seguem o passo-a-passo, frame-a-frame do original tendem a perder alguma coisa no caminho. No recente Deixe-me Entrar, remake do sucesso sueco Deixe ela entrar, as pequenas sutilezas que fizeram toda a diferença no original são suprimidas em favor do politicamente correto. O garoto que, na versão europeia, tinha fortes tendências sadistas, aqui, é apenas mais uma vítima de bullying, aquele mal que até dez anos atrás nós chamaríamos de frescura e agora parece mais a descoberta da roda para a sociedade. Sob o domínio do medo reutiliza a estrutura do filme original do genial Sam Peckinpah para apenas atualizar a história com atores que as novas audiências conhecem, mas longe de conseguir o clima de tensão do original. A tentativa, no entanto, é bastante válida.

Tudo começa quando um roteirista de cinema e sua mulher, uma atriz de seriado, decidem voltar para a terra natal da moça. Lá, ele pretende escrever um roteiro sobre o cerco a Stalingrado e como os russos viraram a história da segunda guerra mundial (curioso como tudo aponta para a própria situação do casal nos momentos finais da trama). Na cidade interiorana, Charlie, ex-namorado da garota, e sua trupe de trogloditas rednecks, trabalhará na reforma do celeiro do feliz casal. Aos poucos, a tensão entre o casal e seus novos vizinhos vai saindo de controle, tornando a vida de todos, um inferno.

O elenco do filme é muito interessante, se considerarmos o original. Na época, Dustin Hoffman era tão mirrado e indefeso como hoje. Magrelo, sem graça, a antítese do galã hollywoodiano. O que dizer de James Marsden, senão que ele é provavelmente o maior corno da história do cinema recente (vide X-Men, Superman - O Retorno, Encantada e Diário de uma Paixão, por exemplo). Em uma atuação tão irritante e apática como lhe é solicitado, torna-se o alvo perfeito para sofrer o calvário nas mãos de Alexander Skarsgard (faltou o °), em uma atuação impecável como o protagonista de toda a ira vindoura que deve recair sobre seu personagem. Turrão, grosso e rivalizando com sua ex-namorada na vida real, Kate Bosworth, no que diz respeito a quem fica mais tempo sem roupa durante o filme. O trio levaria o filme nas costas, não fosse por outras participações interessantes como de James Woods, como o lunático "Coach".
 Fecha essa camisa Eric...Charlie!

Após a metade do filme quando a cena que dará o estopim para o cerco à fazenda finalmente acontece é que o filme acaba por perder um pouco de seu impacto. Querendo o não, o estupro é previsto pelo espectador. A forma como ele acontece e como a esposa reage a ele é que não consegue ser tão sentida quando no original. Falta a ligação com a personagem que parece fazer de tudo para que aquilo aconteça, eximindo o marido de seus erros. O remake simplesmente coloca a culpa de tudo o que acontece não na apatia de Marsden, mas na insatisfação de sua mulher. Mesmo que o original deixe claro que isso faz parte de uma tentativa de vingança da esposa, são os pequenos detalhes que fazem com que a nova versão perca a essência de Straw Dogs.

As cenas finais finalmente desforram toda a raiva causada durante o resto do filme e o final animalesco, preenche todas as expectativas do espectador frustrado. O positivo é a última cena, na qual o personagem de Marsden assiste ao celeiro em chamas e que dessa vez superou inclusive o original. Uma cena que simboliza linhas de diálogo que talvez não fossem necessárias depois de tanta verborragia.
 

Contra o Tempo - Duncan Jones relembra clássicos da viagem no tempo em 8 minutos


Contra o Tempo - Duncan Jones relembra clássicos da viagem no tempo em 8 minutos

NOTA: 7,5 / 10

Source Code

EUA , 2011 - 93 min.

Ficção científica

Direção:

Duncan Jones

Roteiro:

Ben Ripley

Elenco:

Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Brent Skagford, Cas Anvar


Jake Gyllenhaal começou sua carreira no cinema com um dos melhores filmes de ficção científica da década passada. Donnie Darko misturava todas as teorias da física sobre mundos paralelos, viagens no tempo e complexo de super-herói de forma coesa, dramática e estilosa, bem ao estilo anos 80 (temporada dos melhores filmes de loopings temporais). Foram dez anos de crescimento que o levaram há uma indicação ao Oscar no papel polêmico em Brockeback Mountain e empreitadas no cinema blockbuster como em Príncipe da Pérsia. Exatos dez anos depois, ele volta ao cinema, novamente com um diretor novato para assumir seu papel como super-herói em um mundo modficado pelo crescente terrorismo e a necessidade de um messias. Mas, diferente de Darko, seu personagem não pretende de forma alguma se sacrificar pela humanidade.

Na trama, um programa do governo permite, que uma pessoa com compatibilidades genéticas, possa retornar 8 minutos na lembrança de um professor que estava presente em um trem atacado por terroristas. Ali, o capitão Colter Stevens terá que descobrir quem perpetou o atentado antes que outros ataques aconteçam.

Dirigido pelo filho de David Bowie, Duncan Jones, o filme deixa o espectador tenso com suas idas e vindas no tempo. O clima imposto por Jones lembra um pouco a ânsia do desconhecido que acompanhou Lunar, primeiro projeto do diretor. Mas Contra o Tempo logo começa a ampliar seu horizonte, e nesse crescimento, perde seu ritmo. As experimentações de imagem e a forma como o Jones sabe utilizar seus efeitos no momentos certo e com um orçamento tão apertado são os grandes truques do filme. As sequências de explosão que se sucedem quase interminavelmente durante a projeção são inventivas e de cair o queixo. Da mesma forma, o elenco está preparado e consegue segurar a visão do espectador para possíveis problemas estruturais. Problemas que serão repensados ao final da sessão quando algumas pontas ficarão totalmente soltas.

É a partir da metade da história que as coisas ficam confusas. O que antes tomava forma de Feitiço do Tempo, maior comparação que o filme sofre nos primeiros momentos, logo se transforma em uma trama com cara de Fringe. Sai a teoria das lembranças e nos deparamos com o sensível terreno de mundos paralelos. Nesse ponto começam a aparecer erros estranhos na lógica da viagem temporal. O protagonista nota pequenos erros na continuidade do universo, mas que ficam imperceptíveis ao espectador. Não bastasse o capitão explicando o que estava acontecendo toda santa vez que algo diferente acontecia, ainda temos a voz do criador do source code para nos relembrar mais uma vez que mundos paralelos não interferem em uma realidade e, assim, nada pode ser alterado para salvar as vítimas no trem. Depois de tantas idas e voltas para emiuçar bem ao espectador o que está acontecendo, o clímax acaba por se tornar um momento bem fraco, que por sinal, poderia encerrar o filme com certa dignidade. Mas, temos mais 5 minutos de explicações para ficar tudo bem esclarecido e sem quaisquer dúvidas do que aconteceu com todos os presentes.

Então porque na saída do cinema, tanta coisa permaneceu mal explicada para os espectadores? Uma simples reflexão acaba por derrubar muito do conceito estabelecido na história de Contra o tempo. As preocupações estabelecidas para o complexo mundo de Donnie Darko são deixadas de lado pelo momento, a síntese do filme que nos ensina novamente a aproveitar cada dia como se fosse o último e pensar menos na nossa relevância para a vida dos outros. Se comparamos ainda com De Volta para o Futuro, onde pelo menos Marty McFly não tinha escrúpulos que não os seus próprios para alterar o passado, vemos que na verdade, de todos os personagens, Colter Stevens é o mais imoral, ao simplesmente drenar a vida de outro ser em favor da felicidade eterna.

Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2 - Que sera sera, whatever will be will be

Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2 - Que sera sera, whatever will be will be

NOTA: 8 / 10

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2
Reino Unido/EUA , 2011 - 130 min.
Aventura / Fantasia

Direção:
David Yates

Roteiro:
Steve Kloves

Elenco:
Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Ralph Fiennes, Michael Gambon, Alan Rickman,

Foram anos de espera. Acompanho a série desde o longíquo 2001 quando uma professora me emprestou A Pedra Filosofal e me deixou fascinado. Cresci acompanhando as aventuras do jovem Harry Potter, seus amigos Rony e Hermione, as aulas de Hogwarts, o quadribol, as reviravoltas, mortes e surpresas de cada volume. Ao mesmo tempo, o cinema sempre conseguia deixar de fora uma ou outra parte que deixava meu lado fanático um pouco decepcionado. David Yates foi o diretor que achou o tom certo da série e desde A Ordem da Fênix, conseguiu melhorar o universo dos livros nas telonas. Foi mais ou menos na época do quinto filme que As Relíquias da Morte foi lançado e, enfim, encerrou a saga do bruxo. Para minha surpresa, o livro foi de longe um dos mais fracos de J.K. Rowling. E apesar da eficiência de Yates na primeira parte, o segundo longa acabou por sofrer justamente por seu apego à obra original.

No último filme da série, Harry deve encontrar as horcruxes restantes para finalmente derrotar Lord Voldemort.

A tensão dos minutos iniciais do filme prenuncia a carnificina que acontecerá em poucos instantes. Cada momento em que o trio (Harry, Hermione, Rony) aparece, nos lembra que essa é a última vez que veremos cada um desses personagens. A conversa com Grampo (o duende interpretado pelo anão Warwick Davis) dura um bom tempo e lembra (como não dizer) a negociação do Coronel Hans Landa em Bastardos Inglórios. Yates pesa a mão de tal forma que mesmo o humor da cena acaba abafado pela tensão na sala de cinema. Dali para Gringotes o filme flui muito bem, com ótimos efeitos, bela fotografia (destaque para Harry no lago) e a fuga mais exuberante dos últimos tempos no cinema. Pena que basta chegar a Hogwarts para tudo isso se exaurir em um turbilhão de acontecimentos que mais lembram uma descida de montanha-russa sem emoção.

Toda a sutileza do primeiro ato vai pro espaço, bem como na cena em Harry e seus amigos tomam Hogwarts. E a partir daí, sobram cenas de Hogwarts sendo destruída e a massivamente divulgada guerra entre bruxos. O grande problema dessa guerra, é que só é mostrada pelo lado de personagens terciários que pouco aparecem nos filmes. Dos personagens conhecidos, pouco vemos. Seja de Lupin, os Weasley e mesmo Neville que tem uma participação bem maior nesse último momento, todos reunidos devem somar no máximo 2 minutos do filme. Sobram, no entanto, cenas aéreas impressionantes e piromania descontrolada.

Fora esse fator, o que falta nessa segunda parte é emoção. Vemos os cadáveres conhecidos e empilhados por algum tempo e é isso. Tanto que mesmo no epílogo, a cena que deveria ser a mais emotiva das 8 partes, temos um momento bastante insosso e um final bem sem graça.

Nem tudo são falhas. As batalhas são magistrais, a trilha sonora está afiada, as atuações estão convincentes e emocionadas. Até os diálogos tem relevância. O filme sofre é com o material original mesmo, que não oferece uma maior profundidade ou sequer aproveita ganchos e boas ideias plantadas durante toda a série. Emociona? É claro que sim. Crescemos acompanhando esses personagens. Querendo ou não isso iria acontecer.

Mas não foi a experiência tão marcante para o fim de uma geração que voltou a se apaixonar pela magia.

Kung Fu Panda 2 - A metáfora do renascimento da Dreamworks



NOTA: 10 / 10

Kung Fu Panda 2
EUA , 2011 - 91 min.
Ação / Animação / Comédia

Direção:
Jennifer Yuh

Roteiro:
Jonathan Aibel, Glenn Berger

Elenco:
Jack Black, Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Lucy Liu, David Cross, Jackie Chan, Seth Rogen, Gary Oldman, James Hong, Michelle Yeoh, Danny McBride, Jean-Claude Van Damme

Em 2008, comentei no blog sobre a imensa diferença que existia entre os estúdios Pixar e a Dreamworks Animations, os maiores rivais no ramo do cinema de animação, ambos em um período decisivo de sua história. A Dreamworks combinava o bom humor de suas produções com um alto faturamento, mas ao mesmo tempo, sem pretensão de extrapolar o óbvio, beirava a repetição e a mesmice, tentando angariar popularidade com elementos que a consagraram , principalmente através de Shrek. Kung Fu Panda era a essência dessa fase, com muito visual, bom humor, mas sem um algo há mais que o diferenciasse. Por outro lado, a Pixar atingia seu pico com a produção de Wall-E, uma animação rebuscada tecnologicamente, narrativamente inovadora, e capaz de emocionar com protagonistas que sequer dialogavam. O 3º Oscar consecutivo da Pixar e os consequentes insucessos da Dreamworks mostraram que o caminho certo a ser seguido era o traçado por John Lasseter e sua equipe, tanto que a hegemonia da empresa se consolidou em seu 6º Oscar e no bilhão de dólares conquistado por Toy Story 3. Então, veio 2011.


Kung Fu Panda 2 mostra Po, o dragão-guerreiro, prestes a enfrentar um inimigo maior que o kung fu: a arma de fogo.

Do começo até o fim, o filme arranca suspiros de admiração, risadas e até mesmo emoção e empatia. O visual totalmente experimental aplicado na produção, misturando uma interação perfeita da computação gráfica com a animação tradicional, não só impressiona, mas consegue transcender a ideia de estética e linguagem do cinema de animação. Não é exagero comparar a inovação da utilização das mais importantes técnicas de animação em todos os meios, com a revolução trazida por Toy Story em 1995. Mais do que isso, a direção competente de Jennifer Yuh, uma artista que sabe utilizar a arte em favor da narrativa e não como um elemento separado e dispensável, fez com que a utilização de cores durante as lutas exemplarmente coreografadas, servissem como apoio para realçar delicadamente o estado de espírito de cada personagem.

E tudo isso com um inteligente toque oriental.

O desequilíbrio de Po, representado durante todo o filme pelos Ying-Yangs espalhados pelas cenas, o ódio objetivista do vilão Shen e sua tragédia quase edipiana em busca da paz de espírito, tudo, refletido nos cenários, na iluminação, interna e externamente, prevendo cada ato dos personagens e tornando a viagem tão mais profunda e exuberante. A sutileza desses detalhes também se espelha nos movimentos cuidadosamente pensados e mesmo uma fração de segundo, apenas um frame, pode redimir a mais perversa das almas (ou seria simplesmente a aceitação do inevitável e a compreensão do todo?).

Se o visual é capaz de inspirar tanta emoção e verborragia, os diálogos servem para levar a história de um ponto a outro sem pesar a carga filosófica. Po está mais afiado do que nunca e o carisma do protagonista rende boas risadas. Além do mais, depois do sucesso de Como Treinar o Seu Dragão, a Dreamworks parece lentamente se adequar aos dramas dos personagens, sem precisar desmoronar uma bela cena com uma piadinha fuleira qualquer.

Pouco a pouco, galgando seu lugar passo-a-passo, a empresa parece encontrar o seu rumo, sem copiar sua rival, produzindo grandes filmes com peso artístico, narrativo e, felizmente, original. Assim como Po, a Dreamworks deixa de ser apenas uma caixa registradora do cinema e volta ao ringue com um kung fu aprimorado, pronta para mostrar quem ela é.




Thor - Marvel e o novo universo do cinema

Thor - Marvel e o novo universo do cinema

Thor

NOTA: 7 / 10

EUA , 2011 - 114 min.
Aventura / Épico

Direção:
Kenneth Branagh

Roteiro:
J. Michael Straczynski, Mark Protosevich

Elenco:
Natalie Portman, Chris Hemsworth, Anthony Hopkins, Ray Stevenson, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Idris Elba, Tom Hiddleston, Rene Russo, Jaimie Alexander, Colm Feore , Clark Gregg, Tadanobu Asano, Jeremy Renner


Não pude deixar de ter um mau pressentimento quando a cena de abertura de Thor mostra um grupo de cientistas na Terra, em busca de um tornado no meio de um deserto. É o típico começo de uma história em quadrinhos da Marvel, mas que na empolgação dos trailers e na espera do início do filme parece quebrar o ritmo, ao invés de preparar o terreno para o Deus do Trovão. Não é à toa que os momentos do filme que se passam longe de Asgard poderiam ter sido simplesmente cortados de toda a trama sem problema algum, evitando assim os lugares-comuns dos filmes de aventura e os bocejos, ou como gosto de chamar "momentos de ir no banheiro", quando nada de relevante parece acontecer. Acontece que apesar desse problema, a Marvel utiliza o filme apenas como mais uma peça do mosaico que vem criando desde Homem-de-Ferro e ao contemplar a obra completa, parece não ser tão deslocado assim.

A história mostra o filho de Odin, Thor, sendo exilado de Asgard após um ato impetuoso. Agora, ele precisa mostrar-se digno de empunhar o Mjolnir e salvar o universo de seu irmão Loki.

Kenneth Branagh pareceu ser o nome ideal para dirigir o filme do deus do Trovão, visto sua grande experiência em adaptar Shakespeare e seu inglês pomposo de forma visualmente teatral mas interessante. No entanto, não é isso o que se vê em Thor. Tão pouco o visual, que em Asgard é de tirar o fôlego, mas na Terra parte para planos inclinados estranhos e desnecessários, praticamente retirados daquela bomba da década passada, A Reconquista. Não basta apenas uma vez, mas durante todo o filme repete-se o efeito, quase vertiginoso em 3D. 3D esse que serve apenas para aumentar a arrecadação, já que não contribui em nada para a história, apenas confunde as cenas de ação e escurece irritantemente a tela. Ao menos, as mesmas batalhas conseguem empolgar com elementos que nos fazem esquecer os momentos desnecessários passados em Midgard.

O elenco encaixou como luva em cada papel, tanto visualmente quanto psicologicamente. Enquanto Anthony Hopkins rouba a cena como o poderoso Odin, Thor (Chris Hemsworth) é turrão, musculoso e engraçado, bem como nos quadrinhos. Seus asseclas de Asgard aparecem pouco mas tem relevância, perdendo espaço para Tom Hiddleston, que faz um Loki confuso e obstinado, capaz de se mostrar uma grande ameaça nos próximos filmes da empresa. Já Natalie Portman e o elenco da Terra (excetuando Jeremy Renner (em participação especial)) parecem ligados no automático, recitando frases prontas e servindo de ligação com o grande público.

Graças, é claro, ao roteiro amarrado e cheio de momentos desnecessários escrito por J. Michael Strackzyinsky e Mark Protosevich. O primeiro, conhecido por sua carreia nos quadrinhos, "cometeu" uma das piores fases do Homem-Aranha em anos, findado pela expressão (que pode muito bem se aplica a Thor) "É Magia, não precisa explicação". São diálogos e sentimentos forçados goela abaixo e um Thor que muda da água pro vinho em, literalmente, uma noite. Não dá pra engolir que o mimado e orgulhoso filho de Odin se apaixone pela humanidade e pela personagem de Natalie Portman em pouco mais de 48 horas (se bem que todos nos apaixonamos pela atriz em menos de 1h30...). A incoerência desse ato quase apela para o clássico final da lágrima que ressuscita, que, por sinal, ninguém aguenta mais.

Não fosse pela totalidade da obra e, novamente, pela cena escondida nos pós-créditos, Thor poderia muito bem passar desapercebido como um filme divertido, visualmente eficiente, mas ainda assim, abaixo da média. O grande trunfo da Marvel está em ligar seu projetos formando assim uma cronologia totalmente nova e invejável nos cinemas, coisas que a rival, DC Comics, mostra-se arredia e, praticamente, desistiu de tentar criar. Ainda assim, os filmes da Distinta Concorrência, podem firmar-se muito mais como obras solo, como é o caso da ótima franquia restaurada por Nolan de Batman e a aposta em uma retomada de Superman, comandado por Zack Snyder e com a mão dos Nolan no roteiro.

Assim como nos quadrinhos, as empresas disputam o concorrido mercado, uma sempre apostando na quantidade, e outra, na qualidade.