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Ensaio Sobre A Cegueira - Diretor consegue manter o caráter alegórico da obra


Selecionado para abertura oficial do Festival de Cannes, Ensaio sobre a Cegueira já tivera um início polêmico. Adaptar uma obra de Saramago, ganhador do Nobel, não era tarefa para qualquer um. O diretor Fernando Meirelles conversou com o escritor durante muito tempo, até que ele aceitasse a proposta do filme. No entanto, Saramago exigiu apenas um detalhe: que o lugar onde os eventos transcorressem não fossem identificados no filme.

Isso tudo para que a história não perdesse seu caráter alegórico. Publiquei algum tempo atrás a resenha do livro original(confira aqui), onde deixei bem claro o quanto o autor considera sua obra uma metáfora da humanidade e dos sistemas políticos. O traço mais importante do filme é manter esta característica durante toda a projeção da película. Para quem não sabe, o filme conta sobre uma epidemia de cegueira branca que instala-se em um determinado país. Rapidamente a situação torna-se caótica, obrigando as autoridades a encerrarem os contaminados em um hospício abandonado. É nesse lugar onde apenas uma pessoa enxerga, que o narrador desenvolve sua história da decadência da humanidade.

Fernando Meirelles é um diretor preocupado com a estética de seu filme. Desde os primeiros takes, o diretor utiliza a câmera para desorientar o espectador através de desfoques e jogo de fotografia. O branco estourado seguido pelo breu total, as cores frias e sem vida. Tudo colabora para manter o clima imprevisível e caótico do filme. A direção de fotografia é do talentoso César Charlone, diretor de O Banheiro do Papa e que já trabalhou com Meirelles em O Jardineiro Fiel. É perturbador ver o branco da cegueira, lentamente transformar-se no sujo e escuro que o hospício torna-se. Uma história contada pelos filtros e luzes utilizados na fotografia do filme.

A direção de atores também não desagrada. Juliane Moore faz muito bem o papel da mulher do médico, uma mera espectadora neste circo de horrores. Mark Ruffalo demonstra os últimos resquícios de civilização no caos que aos poucos cessa de existir. A cena do médico com a rapariga dos óculos escuros sela o final dessa tentativa de uma forma poética e brutal, ao mesmo tempo. O mesmo pode dizer-se das cenas na camarata 3. Gael Garcia Bernal, que normalmente faz papéis de bom moço, é um grandisíssimo filho da puta, no papel de rei da ala 3. Ponto para o ator. A única falha do elenco( e nessa mesmo o autor concorda comigo) é o cão das lágrimas. Eu imaginava um pastor alemão e não um animal tão pequeno.

A adaptação é muito fiel e homenageia a obra de Saramago. Destaque para a cena em que Gael canta Stevie Wonder. Um dos poucos momentos em que a tensão do filme é aliviada. A trilha sonora ajuda a construir o clima de metáfora e imprevisibilidade do filme. Irritante, a edição de som se mescla com a trilha, causando um frio na barriga que percorre toda a projeção. Com exceção de poucas passagens cortadas do livro, o filme manteve-se inteiramente fiel à obra original.

Fernando Meirelles constrói com Ensaio sobre a Cegueira, seu melhor filme até o momento.

8 comentários:

Raquel disse...

Hmmm...

Me deixou com vontade de assistir! Onde tu vistes o filme?

Quanto ao teu comentário no meu post sobre o "Eu sou a lenda", é verdade.
É claro que sem arriscar, nunca teríamos descoberto nada, seja em proporções pequenas, como nas pequenas coisas do dia-a-dia, ou em grandes proporções, como o acelerador de partículas ou o vírus do filme.

Vamos ver no que vai dar... =P

Misael disse...

assisti na cabine de imprensa que teve, no cinemark em porto!

aliás, corremos risco de vida hoje ainda, com o colisor de haldrons...

Juliane Soska disse...

o livro é maravilhoso e, ao que me consta, o filme não deixa a desejar.
exceto a parte do cão. acho que todos imaginávamos um cachorro maior. senão um pastor alemão, um outro de tal porte.
esse livro foi um dos melhores que já li.
no findi tenho programa certo!
belo texto. conseguiu exprimir o que, mesmo não tendo assistido ainda, já imagino!

will disse...

Bah, muito angustiante esse filme!!
Nem tanto pela trilha, mas o uso indiscriminado do branco, era, sem intenção de ser redundante, cegante!
O que faz o filme ainda melhor!

O Gael cantando é tudo!!!!!

=**

Sr. M disse...

o gael dando a gozada mais mortal da vida dele foi mais legal.
A trilha eh medonha. tóin tóin tóin piri tong

will disse...

=O
Tadinho do Gaelzinho...

Sabia que ele também tem any cenas gays no cinema?
=~~~~

Pois é, não prestei atenção na trilha =P

Juliane Soska disse...

reundâncias...findi? veja ensaio sobre a cegueira.
by Lima, Misael Lima.

Misael disse...

aushduashdausdha